Por trás dos bastidores: a prostituição contada por quem a vive

26 jun

São 23h30. O batom dá o último retoque no visual. As roupas curtas, de cores fortes e coladas ao corpo, sugerem o que está para acontecer. Antes de ir trabalhar, três horas são reservadas somente para a produção. Uma hora em casa para tomar banho e fazer a higiene pessoal e duas horas na boate, para se vestir e se maquiar. Essa é a rotina básica de uma garota de programa classificada como “de luxo”. A boate é seu local de trabalho, e os seguranças de lá são os dela também.

Champanhe? Quanto maior o preço, a quantidade e a qualidade, melhor. Primeiro para os clientes saberem o nível do serviço. E, depois, porque a regra é ‘sugar’ ao máximo quem se deixa ser ‘sugado’. Ao final do expediente, ela liga para o motorista da boate para levá-la em casa e pede para não parar muito perto da residência para evitar comentários desagradáveis. Natasha*, de 22 anos, cobra 600 reais por programa, faz de três a quatro por noite e trabalha em uma casa noturna no Centro de uma capital estadual.

Já Greice, de 23 anos, trabalha em um prostíbulo à beira de uma rodovia federal. Ela é uma garota de programa que atrai fregueses pelo baixo preço e pelas poucas exigências. Cobra 60 reais por programa e chega a fazer quatro por noite. Logo após o pôr-do-sol ela já está pronta. Ela sabe que quem a procura ali, em um prostíbulo mais “simples”, o interesse pelas roupas que estará usando será passageiro. Basta um banho simples, uma saia curta e uma blusa pequena, mesmo que não escondam suas medidas um pouco avantajadas. O corpo não precisa estar em plena forma – ele terá utilidade igual. Os caminhoneiros e homens com menor poder aquisitivo compõem a maior parte da lista de seus clientes. A segurança? Ela mesma faz.

Keep Coller? Somente isso. Quem sabe um uísque, mas nada de cerveja ou bebidas mais baratas. Cada garrafa consumida faz diferença no orçamento final de cada dia. Quando a alvorada já está apontando, ela fecha a casa, vai para o quarto, que fica aos fundos da residência, e descansa. Mais um dia que passou.

Greice e Natasha, embora colegas de profissão, certamente não se conhecem. Embora atuem em níveis distintos da profissão popularmente considerada a mais antiga do mundo – Natasha chega a conseguir 100% a mais por programa -, ambas dizem estar realizadas na vida profissional. Elas são contrastantes em alguns aspectos, mas se mostram seguras no trabalho que realizam, provando que a prática e a aceitação da prostituição é algo que varia dependendo dos valores de cada pessoa. Contudo, em uma questão elas entram em acordo: as duas desfazem boa parte do estereótipo da prostituta construída pela mídia, pouco questionado pelo público e que, segundo elas, na maioria das vezes é equivocado e não corresponde à realidade das garotas de programa.

Entre champanhes e viagens: a prostituição de luxo

O ritmo da música embala a dança e a conversa. A luz, ainda que baixa, deixa transparecer os rostos que ali se encontram. Os garçons andam por entre as mesas, as mulheres agradam os clientes. Entre uma conversa e uma bebida, a possibilidade de uma prestação de serviço. Esse é um ambiente de trabalho. Mais especificamente um prostíbulo. Mas não é qualquer um. Os freqüentadores deixam evidente a classe a qual pertencem. Os carros que se encontram no estacionamento reforçam a idéia de que o local recebe pessoas bem sucedidas – ao menos financeiramente.

As funcionárias garotas de programas do Sexy Pub*, no Centro de Florianópolis (SC), são mulheres entre 18 e 25 anos de idade. Segundo elas, para poder trabalhar em boate, beleza é fundamental. “Além disso, um bom papo faz o diferencial na hora de conquistar um cliente. É necessário conversar. Muitos deles possuem elevado nível intelectual”, conta Natasha, que trabalha na boate.

Natasha tem o corpo dentro dos padrões considerados ideais para a prática da prostituição. Morena de 1,65 metro e 53 quilos, as formas definidas lembram a fisionomia das atrizes que interpretam garotas de programa na televisão e no cinema. Sobre o assunto, Natasha critica a forma com que os meios de comunicação geralmente tratam o tema. “A mídia nos mostra como coitadas que vendem o corpo para sustentar a família ou preguiçosas que querem dinheiro fácil”, opina. Para ela, o mundo da prostituição tem sim as mulheres que trabalham por estes motivos, mas faz uma ressalva. “É um trabalho normal, eu ofereço um serviço e alguém consome. As pessoas têm relacionamentos sexuais, só que eu cobro por isso”, alega.

Sua rotina começa às 20h, quando inicia os preparativos para ir trabalhar. Precisa chegar ao Sexy Pub às 23h. Não há uma “carga horária” pré-determinada. Trabalha quando quer e quanto tempo quer. Geralmente chega em casa às 5h. Descansa até o início da tarde e vai à academia. Depois de malhar, Natasha tem algumas horas livres antes de começar a se arrumar novamente para o trabalho. “Muitas vezes, aproveito este tempo para fazer compras e passear”, relata.

Além de trabalhar no Sexy Pub, Natasha atende alguns clientes fixos, com quem viaja e acompanha em festas. Isso eleva a sua renda. De acordo com ela, o dinheiro é o grande diferencial da profissão. “O retorno financeiro é a recompensa. Com ele, procuro investir em mim”, explica. Vida de luxo? Talvez. Mas, segundo ela, o dinheiro não é utilizado apenas para coisas supérfluas. “Não gasto apenas com roupas. Procuro cuidar da minha saúde e higiene. Vou ao ginecologista, procuro me exercitar, me alimentar bem e me manter limpa”, revela.

A boate que para muitos é apenas um espaço destinado à luxúria, para outros é apenas um local de descontração como qualquer outro. Katarina de Cássia*, 25 anos, freqüenta casas de show e afirma que nestes locais a balada é mais tranqüila. “Aqui todo mundo se respeita e nem todos que estão aqui vem pelo sexo”, avalia. Casada há um ano com um dos seguranças da boate, ela diz que vai até estas casas noturnas para se divertir com as amigas que trabalham no lugar. “Aqui é um lugar onde a gente sabe que pode acontecer (o sexo), mas isto não significa que vá realmente acontecer”, completa.

Entre a cama e a cozinha: a prostituição popular

Quem vê uma luz vermelha em uma casa situada na rodovia BR-101, no trecho que dá acesso à Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis, logo sabe de que tipo de estabelecimento se trata. A colorida e iluminada placa de néon com a inscrição Sex Hot* não deixa dúvidas. O que muitos não esperam, porém, é encontrar ali seis mulheres que, ao contrário do que muitos pensam, mostram que o conceito de que a prostituição é praticada apenas por mulheres tidas como “vítimas do sistema” é algo ultrapassado.

Greice é uma delas. Natural de Caçador, no interior de Santa Catarina, veio para Florianópolis há quatro anos para trabalhar de balconista em uma boate, mas acabou entrando para o mundo das profissionais do sexo há quase dois e, desde então, ela afirma levar uma vida ainda melhor do que as mulheres consideradas ‘normais’. “As pessoas vêem na TV e acham que a vida de prostituta é um sofrimento só, mas não é bem assim. Aqui a gente ri mais do que chora”, garante.

Sheila*, de 21 anos, trabalha no Sex Hot há três anos e também afirma que adora a profissão. Ela conta que, antes do expediente de trabalho, leva uma vida como qualquer outra mulher. “Durante o dia eu limpo a casa, faço compras, assisto televisão. Mas é durante a noite que o ‘bicho pega’”, revela.

Greice e as outras cinco meninas cobram 60 reais por uma hora de sexo. Segundo ela, a diária que elas ganham não provém apenas do dinheiro dos programas. “A gente não vai só com um para a cama por noite, né?!”, declara, lembrando que já chegou a transar até com quatro homens em uma só noite. Perguntada se o trabalho não se torna cansativo com tantos clientes em um período tão curto, Sheila responde com naturalidade. “Cansa né! Como todo trabalho! Além disso, recebemos também uma porcentagem do preço da bebida”, confessa.

Elas contam que, embora o predomínio de homens de menor poder financeiro, o prostíbulo atrai pessoas de todas as classes sociais, que buscam no local o refúgio para algumas horas de diversão, prazer ou apenas distração. “A maioria dos homens casados que nos procuram querem fazer o que suas esposas não fazem, por vergonha ou caretice. E eu faço de tudo; faço bem e faço bonito”, gaba-se Greice, aos risos. De acordo com elas, os freqüentadores do estabelecimento gastam quantias grandes de dinheiro e ainda pagam festas – as “festas dos bacanas”, como elas chamam – regadas a muita bebida, música e onde o desejo sexual flui intensamente. “Aqui não é um lugar ‘dos mais chiques’, mas os caras gostam mesmo é de quem faz tudo com eles. E isso é com a gente mesmo”, acrescenta Greice, expressando nas palavras a segurança e a determinação notável a todas as funcionárias da casa.

Com tamanha aparente satisfação no que fazem e sendo essa a profissão tida como a mais antiga, seria a prostituição a carreira mais bem-sucedida? Greice e Natasha, ao menos, não tem planos de deixar o ofício tão cedo. Elas desconstroem a imagem construída pela maioria dos meios de comunicação sobre o mundo da prostitutas. Afirmam ser felizes na área que atuam e garantem viver uma vida normal – realidade que boa parte da sociedade desconhece.

A naturalidade com que ambas falam do emprego, cujo principal instrumento de trabalho é o corpo, levam à reflexão sobre o poder da mídia na formação dos estereótipos das garotas de programa. Os depoimentos de Greice e Natasha vão de encontro à muitas idéias que são expostas tanto pelos veículos de comunicação como pelas próprias garotas de programa, através de blogs, livros e afins. Exposição esta que comumente é aceita passivamente pelas pessoas, sobretudo pelas que se encontram na chamada “cultura de massas”.

O relato feito por elas e a realidade em que vivem despertam para um lado da prostituição ainda ignorado. Uma face ainda ocultada por preconceitos sociais e mascarada pela maioria da imprensa. Embora as rotinas e opiniões de Greice e Natasha não correspondam às de todas as prostitutas, uma análise mais profunda sobre o tema por parte da mídia e uma posição mais crítica da população poderia ajudar a desvendar o até então enigmático universo das profissionais do sexo.

* A pedido dos entrevistados, os nomes das pessoas e dos estabelecimentos foram trocados.

Reportagem feita no ano de 2008 para o Trabalho Interdisciplinar do curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá – São José – SC.

Autores: Alessandro Engroff, Bruna Coelho, Kauana Pereira e Rebeca Stiago.

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